Desejos do Coração ou Vontade de Deus?
- Antonio Jorge Béze

- 21 de dez. de 2024
- 5 min de leitura
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17:9)
O chamado de Deus é algo sublime, mas muitas vezes interpretado erroneamente. Vivemos em uma era onde as emoções são colocadas no trono e confundidas com revelações divinas. A cultura do “faça o que te faz feliz” invade nossas igrejas e, antes que percebamos, estamos usando nossas habilidades, vaidades e até mesmo nosso discurso piedoso para justificar escolhas que, no fundo, são impulsionadas pelo ego. Como podemos, então, discernir se estamos realmente ouvindo a voz de Deus ou apenas ecoando os desejos de um coração enganoso?
Agostinho de Hipona, ao refletir sobre o coração humano, declarou: “Tu nos fizeste para Ti, e o nosso coração não encontra descanso até que repouse em Ti.” Esse descanso, entretanto, só é encontrado quando renunciamos às nossas vontades egoístas e submetemos nosso coração ao senhorio de Cristo. Sem isso, caímos na tentação de interpretar nossos desejos como sendo a vontade de Deus. A Bíblia é clara: nosso coração é enganoso. Ele pode mascarar a ganância como zelo, a busca por poder como serviço e o desejo de aplausos como um chamado divino. A pergunta é: quem está no trono do nosso coração?
A história de Saul é um exemplo clássico dessa confusão. Saul foi escolhido como rei por ser imponente aos olhos do povo, mas seu reinado foi um fracasso espiritual porque ele confiou mais em si mesmo do que na direção de Deus. Quando confrontado por Samuel por sua desobediência, Saul justificou suas ações dizendo que fez aquilo para agradar o povo e honrar a Deus. Contudo, Samuel lhe respondeu com uma das verdades mais cortantes das Escrituras: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender melhor do que a gordura de carneiros” (1 Samuel 15:22). Não é raro justificarmos nossas escolhas equivocadas com “boas intenções” quando, na verdade, estamos apenas nos rendendo à nossa vaidade.
John Piper, em seu livro Em Busca de Deus, afirma que “Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos Nele”. Essa satisfação, porém, não é uma emoção passageira ou um estado de conforto. É um compromisso de submeter nossas vidas ao senhorio de Cristo, mesmo quando isso significa abrir mão de nossos sonhos, planos e até mesmo ministérios que parecem promissores, mas que não foram ordenados por Deus. Afinal, nem tudo que brilha é ouro, e nem toda oportunidade é um chamado.
Precisamos parar e examinar nossas motivações. Por que buscamos determinados cargos ou posições no Reino? Será porque realmente sentimos um chamado para servir, ou porque desejamos o reconhecimento que vem com eles? Charles Spurgeon advertiu: “Cuidado com a tentação de se colocar onde Deus não te chamou. Não há lugar mais perigoso do que estar fora da vontade de Deus.” Muitas vezes, o verdadeiro chamado de Deus nos leva a lugares de anonimato, onde nosso orgulho é quebrado e nossa dependência d’Ele é forjada.
Quando Jesus escolheu os doze discípulos, Ele não buscou os mais eloquentes, influentes ou carismáticos. Ele chamou homens comuns, muitos dos quais precisariam de transformação radical antes de poderem cumprir o propósito divino. Pedro, por exemplo, era impulsivo e, muitas vezes, agia com base em seus próprios desejos. No entanto, foi moldado por Cristo até se tornar um líder cheio de humildade e ousadia, disposto a morrer pela fé.
Mas e nós? Estamos dispostos a ser moldados? Estamos prontos para abrir mão de nossa eloquência, desenvoltura ou qualificação técnica, caso Deus nos peça para servir em silêncio, longe dos holofotes? Precisamos entender que no Reino de Deus, o valor não está na posição, mas na obediência. Como disse Dietrich Bonhoeffer, “quando Cristo chama um homem, Ele o convida a vir e morrer” — morrer para si mesmo, para seus desejos e para sua glória pessoal.
Se negligenciarmos essa verdade, corremos o risco de cair nas palavras de Provérbios 14:12: “Há caminho que parece direito ao homem, mas o fim dele são os caminhos da morte.” Precisamos encarar o fato de que, se tomarmos decisões baseadas em empolgação ou vaidade, podemos arruinar não apenas nossos ministérios, mas também nossa comunhão com Deus.
A solução? Submeta-se a Deus com um coração quebrantado. Busque sabedoria na oração e na Palavra. Teste suas motivações com honestidade brutal. Pergunte-se: “Essa decisão glorifica a Deus ou satisfaz minha vaidade?” E, acima de tudo, esteja disposto a esperar. Deus não tem pressa. Ele nos guia no Seu tempo, não no nosso.
O apóstolo Paulo nos exorta em Romanos 12:2: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Isso não é apenas um convite; é uma ordem. Transformar-se exige esforço, disciplina e submissão. Não podemos discernir a vontade de Deus enquanto estivermos conformados com os padrões do mundo, incluindo a busca por aprovação humana.
Minha oração é que você tenha coragem de examinar seu coração à luz da Palavra de Deus. Que você permita que Ele revele as áreas onde o orgulho e a vaidade têm governado, e que você esteja disposto a abrir mão de tudo para seguir a vontade d’Ele. Não há lugar mais seguro ou mais satisfatório do que estar no centro do plano divino. Mas isso exige uma escolha diária de negar a si mesmo, tomar sua cruz e seguir a Cristo. A pergunta é: você está disposto a pagar o preço?
Ação Prática para Hoje
1. Leia e medite nos seguintes versículos:
• Jeremias 17:9-10: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações.”
• Provérbios 3:5-6: “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.”
• Salmo 139:23-24: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.”
2. Realize este procedimento hoje:
Pegue um papel e escreva um desejo ou plano que você acredita ser um chamado de Deus. Depois, ore pedindo discernimento e submeta esse plano às seguintes perguntas:
• Estou buscando a glória de Deus ou minha própria satisfação?
• Tenho consultado a Palavra e buscado conselhos de pessoas espirituais sobre isso?
• Estou disposto a abrir mão desse desejo, se não for a vontade de Deus?
Após a reflexão, comprometa-se a buscar uma confirmação clara de Deus antes de agir. Guarde o papel como um lembrete do que você entregou a Ele hoje.
3. Faça uma oração sincera, abordando os seguintes aspectos:
• Reconheça diante de Deus que seu coração pode ser enganoso e peça que Ele revele Suas verdadeiras intenções para sua vida.
• Confesse quaisquer motivações egoístas que você tenha identificado durante o devocional.
• Ore por coragem para obedecer à vontade de Deus, mesmo quando isso exigir renúncia ou esperar pelo tempo d’Ele.
• Peça por discernimento espiritual para entender o chamado de Deus e para que Ele use sua vida para a glória d’Ele, e não para exaltação própria.
Exemplo de oração:
“Senhor, eu reconheço que o meu coração pode me enganar e que muitas vezes sou tentado a seguir minha própria vontade, e não a Tua. Peço que o Senhor sonde as minhas motivações e revele qualquer caminho em mim que não esteja alinhado ao Teu propósito. Ajuda-me a confiar plenamente em Ti, a buscar Tua sabedoria na Palavra e a ouvir Tua voz acima de tudo. Dá-me a coragem de renunciar àquilo que não vem de Ti e de esperar no Teu tempo. Guia-me pelo Teu caminho eterno e usa minha vida para a Tua glória. Em nome de Jesus, amém.”




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